Chão de terra batida – Lançamento dia 7 de novembro 2009

Chão de terra batida - Rudinei Borges
CHÃO DE TERRA BATIDA
por Rudinei Borges
Lançamento dia 7 de novembro, às 19h.
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All Print Editora e Gráfica Ltda.
Espaço Cultural Antonio Adolpho
Rua Ibituruna, 550 – Jd. Saúde – São Paulo – SP
(próx. Estação Saúde do Metrô)
Fone: (11) 2478-3413
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O CHÃO DE RUDINEI BORGES
por Edner Morelli
A literatura de Rudinei Borges impressiona pela sua simplicidade, comprovando que a boa obra literária nem sempre precisa se apoiar num hermetismo estético que, muitas vezes, não diz nada. Por meio de uma prosa memorialista, algo que transita entre o regional e o universal, o autor, com invejável tom poético, apresenta-nos uma revisitação de seu espaço primeiro, no caso, o interior do Pará. Ao optar pela primeira pessoa, a obra adquire certa atmosfera autobiográfica, porém, nunca se esquecendo da possibilidade de representação que as imagens literárias nos proporcionam.
O texto de Rudinei, materializado em seu primeiro livro Chão de terra batida, beira o relato pessoal, misto de crônica e conto fragmentado, com perdão da redundância. Obviamente, por trás dessa economia de meios de linguagem, os textos desse livro guardam uma potencialidade infindável de sugestões poéticas, como verificamos no texto abaixo, que vai do tom impressionista-cotidiano à surpreendente reflexão existencial-filosófica:
Altar
Mãe rezava o rosário inteiro
antes de dormir.
E eu baixinho repetia
as palavras da mãe:
amar significa olhar para as coisas
sem sentir saudades delas.
Rudinei cria, ou melhor, re-cria sua própria mitologia, ao recuperar as figuras familiares mais íntimas, os espaços mais longínquos de sua infância-raiz, apontando para um movimento curioso de representação, que abrange o lado interior e exterior do poeta. Como uma fotografia em prosa, Rudinei nos oferece uma visita ao seu mundo particular, pois só ele esteve in locus nessas reminiscências, que esse livro possui a pretensão literária de eternizá-las.
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REPERCUSSÃO
“Chão de terra batida é um microcosmo onde o leitor caminha pelas terras e sente os cheiros e os sabores da infância, as brincadeiras de criança, as travessuras de menino levado, aquele tempo que não morre e que nos acompanha durante toda a vida e nos dá conforto quando há solidão”. (Felipe Garcia de Medeiros)
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“Chão de terra batida é um livro mítico. Ele remonta ao barro primitivo para tocar no mistério da gênese. Não da Phýsys enquanto mundo objetivo, mas do Cosmos subjetivo da poesia de Rudinei Borges. Narrativa em que as principais referências são femininas: a mãe, a vó, a Amazônia, grande ventre do qual aquelas parecem constituir figura. O livro conta, em instantâneos plenos de beleza e encanto, a conformação da poesia e do poetar na alma do menino. E, não obstante, na subjetividade do processo, uma viva comunicação se estabelece. O leitor se vê no poeta: Mistério da poesia!” (Edilson Pantoja)
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“Os poemas de Chão de terra batida possuem uma propriedade peculiar: conseguem nos impregnar da mesma nostalgia de seu autor, como se odores, sabores e outras sensações que percorrem o livro se integrassem às lembranças de cada leitor. Epifanias que eclodem de cenas cotidianas revelam um universo repleto de singelas riquezas, para o qual somos transportados, por força do claro estilo de Rudinei Borges. A propósito deste estilo, o rigor de quem procura a palavra exata e a simplicidade derivada da opção por prescindir de efeitos vazios se encontram em medidas precisas na escrita de Rudinei, o que nos faz crer estarmos diante de um poeta destinado a se consolidar entre os melhores”. (Carlos Alberto Rodrigues Pereira)
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“Chão de terra batida é um mergulho nas águas densas das sensações, as mesmas águas em que navegam as pequenas embarcações que os olhos do menino avistavam do cais. Entre ruas e personagens, Rudinei Borges se debruça sobre o passado, resgata impressões do cotidiano e irrompe o universo cultural de sua terra, a Amazônia. O que mais agrada em Chão de terra batida é a capacidade do autor em olhar o passado sem distanciar-se do presente e correlatamente projetar o futuro. A maneira como Rudinei interage com a temporalidade torna este livro imprescindível”. (Sidnei Ferreira de Vares)
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Retrato de Rudinei Borges
Rudinei Borges e a poeta Adélia Prado
Sou um poeta, um escritor do mato, mesmo amando a inteireza e a loucura das grandes metrópoles, mesmo que eu tenha armado a minha oca em São Paulo. Eu nasci em Itaituba, no interior do Pará. É uma cidade localizada às margens do Rio Tapajós, afluente do Amazonas. Talvez o mais bonito. Sou filho de migrantes que mudaram para as terras paraenses na década de 1970, com a abertura da Rodovia Transamazônica e Santarém-Cuiabá. Vivi parte de minhas infâncias (eu tive várias) em chácaras e sítios nessas rodovias. Por isso, as imagens antigas que povoam a minha memória são uma aglomeração de vacas, poeira, lama, estradas, caminhões, barcos, barro, casas de chão de terra batida, rios, igarapés, árvores, rezas, capelinhas, quintais e rostos suados.
Com seis anos, quase completando sete, fui morar na cidade e só nessa época comecei a estudar num colégio público, Coronel Raimundo Pereira Brasil. Era uma escola pequena de nome grande, nome de coronel do tempo em que borracha e seringueira valiam ouro. A escola foi o desvendar de um mistério. Lembro as primeiras letras ensinadas pela mãe. A professora contava e recontava contos de fada. E hoje ouço gente que fala mal de Cinderela e Patinho feio. Eu gostava de ouvir tudo aquilo. Foi essencial para a minha formação. Como foi essencial o medo que eu tinha de ir até o matagal atrás da sala de aula, onde diziam que morava a Matinta Perera.
Anos depois recebi uma bolsa do Colégio Isaac Newton. Lá concluí o Ensino Médio e fiz peripécias como performances com poemas, teatro e exposição de poesias.
Comecei a inventar de escrever aos treze anos, com a crença de que tudo o que eu escrevia era bárbaro e empolgante. Sempre um pouco de prosa e poesia. A minha mãe trouxe os poetas românticos, os professores os modernos. Foram vários instantes de deslumbramento e as influências estão em meus escritos: Mário e Oswald de Andrade, Drummond, Manuel Bandeira e Ferreira Gullar. A leitura de Chove nos campos de Cachoeira de Dalcídio Jurandir talvez tenha sido um dos maiores acontecimentos em minha jovem vida literária. Foi com Dalcídio que descobri um amor, até então não muito claro, pela Amazônia, pela gente amazônica. Este olhar para o espelho, o reconhecimento das próprias raízes, foi imprescindível. Eu tenho uma aldeia. E mesmo distante, é de lá que vem esta força que me sustenta (força pouca, força grande).
Morei um ano em Santarém e depois mudei para São Paulo, capital, onde me formei em Filosofia. Hoje estou no mestrado em Educação na Universidade de São Paulo – USP. Vivo entregue a vários projetos literários e escrevo e escrevo. Pouco foi publicado. Sou co-autor de dois livros pela editora In House: Educar e aprender e Bate-papo no gramado. Atualmente preparo para publicação independente o livro Chão de terra batida, em que reúno narrativas curtas sobre o tema da infância na floresta, na Amazônia.
A minha literatura habita entre o abrupto e o singelo – pelo menos é essa a crítica que posso fazer agora. De um lado há a ternura do cotidiano, a sagacidade do homem e sua terra. De outro a angústia, a revolta, a pesquisa em torno da existência e da solidão humana. É quase como se morassem em mim dois escritores. De um lado uma procura pela filosofia do encontro de Martin Buber e a obra de Adélia Pardo, Manuel Bandeira, Mário Quintana e Manoel de Barros. De outro Sartre, Beckett, Camus, Kafka, Hilda Hilst, Bergman e Milton Hatoum me atormentam.
Acho que sou um escritor em construção.
(por Rudinei Borges – 22 de julho 2009)
Altar

Arrebol na Amazônia
Mãe rezava o rosário inteiro
antes de dormir.
E eu baixinho repetia
as palavras da mãe:
amar significa olhar para as coisas
sem sentir saudades delas.
Memorial dos meninos
Não tenho razões
para ser
maior que o tempo.
Nem menor
que o instante vago.
Sou apenas o vento
e estou onde quero
como se não quisesse nada.
Meninos da sétima rua
Tenho saudades do que é breve
e vai para além dos barcos.
Esvai com a alvorada.
Saudades do menino cálido
que se perdeu nos campos
entre o cais e o beco
e a tenra ilusão dos fósseis.
Saudades daquele menino:
amante das ruas,
andarilho das tardes.
O meu menino.
Eu mesmo.
Nascimento de Thiago Gonçalves
Tenho que prenunciar o cais.
As mulheres grávidas.
O pasto a cerca.
O ombro dos pais
quando é tempo de colheita.
A mão das mães
diante do fogão à lenha.
Tenho que prenunciar a tarde.
Canção das mães
Meu filho não é meu.
É do mundo.
Ele dorme no
meu colo
a viagem inteira.
Como se fosse meu.
Logo irei soltá-lo
na estação.
Para onde irá
não sei.
Mas um dia
voltará.
E de novo no
meu colo
dormirá
o sono matinal.
Trinta e uma gravuras
A poesia só vem depois das dez.
Eu insisto, sem remorso, nessa demora.
Por vezes, enfeito a mesa com flores.
Nus ficamos à espera.
Olho, curioso, pelo buraquinho da janela
o namoro de Joana no poço.
Em noites de bom humor invadimos a aurora.
Perde-se a madrugada inteira.
A poesia tenta inutilmente me ensinar a dançar.
Catedral de Sant’Ana
Quem é livre
quando calam os sinos
e os candelabros?
Quando a manhã parte
levando os montes?
Ninguém é livre
quando não ama
a intensidade da chama.
Só é livre
a alma branda,
quando a paixão doma
a carne
e as marés lentas
tocam cítaras.
